quarta-feira, 13 de maio de 2009

ARTIGO: SECOS & MOLHADOS. Por Renata Pacheco.

SECOS & MOLHADOS

 

Por Renata Pacheco

 

 

Nos dias de hoje o que mais se ouve falar é sobre mudanças climáticas, aquecimento global, efeito estufa e tudo o que é ligado ao meio ambiente que se tornou a bola da vez.

Neste final de ano, nós brasileiros fomos informados ou vivenciamos vários acontecimentos ditos como naturais e que nunca antes foram vistos, não da maneira que aconteceu. A voracidade das águas que não eram de março atingiu SC, RJ e MG quase que simultaneamente.

A tristeza comoveu a todos, mas o desespero escolheu somente algumas centenas de brasileiros em especial, talvez para que aprendessem a suportar melhor a dor de recomeçar, ou ainda talvez para que se pudesse colocar em prática a boa e velha lição de “Pollyana” que tirava sempre algo de bom de qualquer situação que lhe surgisse.

Parece que é só isso que nos resta, ao nos deparar com a “onipotência” enfurecida da natureza, que vem arrastando tudo, inclusive pedaços de vidas. Será Deus o responsável por isso, já que Ele é o criador de tudo inclusive da natureza? Creio que não.

Hoje são as águas que nos assustam, porém, a seca assombra varias famílias há anos em regiões do nordeste. Há quem diz que a seca do nordeste é o gancho preferido dos marqueteiros, já que política se faz de popularidade, e quem não se torna popular ao prometer que o sertão pode até virar mar?

 O que assusta mais é ver um grande estado que nunca sofreu com a seca, virar refém dela agora. Um estado que já clamou por independência do seu país ter que fechar as portas de prefeituras a fim de economizar para conseguir levar água e comida para seus habitantes. Mas será que este estado irá “vestir” o que o destino o trouxe, assim como os nordestinos? Ou será que exigirá novos projetos de desenvolvimento sustentável para evitar espalhar junto com a seca, a fome e a miséria?

Estamos diante de um novo dilema: o fim da seca no nordeste seria o fim de grandes estratégias políticas e por outro lado, o inicio de obras visando o desenvolvimento sustentável, seria talvez o fim de uma grande discussão sobre uma nova independência brasileira. Portanto, como o direito a vida é para todos, não seria justo só um sair ganhando, há de se pagar pra ver.

 

13/05/2009

sábado, 18 de abril de 2009

PÃO, CIRCO E A VERDADE

Durante o período histórico conhecido como Antiguidade eram comuns as pessoas se reunirem no Coliseu romano para assistirem aos espetáculos patrocinados pelo Estado.

Entretanto, muitos daqueles eventos que lá ocorriam, nada tinham de belo ou romântico, ao contrário, ali, os cidadãos iam para ver a “morte espetáculo”, o que causava um certo prazer e satisfação aos espectadores. A dor alheia era algo buscado por uma boa parte das pessoas que para lá se dirigiam, sentimento este que não chegou ao fim junto com a queda do Império no séc. V, ao contrário, atravessou o tempo e permanece até hoje entre nós.

                Soa estranho, mas as tragédias dão sempre muito “ibope”, o que indica que uma parcela significativa da sociedade ânsia por notícias em relação ao tema, haja vista um número incontável de jornais que exploram justamente as mazelas alheias serem os periódicos mais vendidos em todo o Brasil. O que justifica tal interesse?

                Um outro ponto não menos importante e talvez mais grave nessa análise, é que culturalmente no Brasil o suspeito de ter cometido um delito é, na maioria das vezes, considerado por essa mesma sociedade que se diz “lutar por Justiça”, como sendo “culpado”, ignorando-se assim, completamente a Constituição, os Tratados, as Convenções e a própria Declaração Universal dos Direitos Humanos.

                A nossa Lei Maior preconiza que todos têm direito à ampla defesa e ao contraditório, fato que parece ser ignorado por uma boa parte dos meios de comunicações que acabam expondo na mídia não tão somente a vida dos suspeitos, mas à reboque, também de seus familiares, os quais na maioria das vezes, absolutamente nada têm a ver com o caso, mas que em função da falta de responsabilidade e critério na forma como as notícias são divulgadas, também são antecipadamente punidos. Crianças são ridicularizadas por coleguinhas nas escolas, adolescentes são excluídos das suas tribos, famílias são segregadas, enfim, instala-se o caos e a vergonha nessas famílias. Isso é democracia?

                É certo que quem comete um ilícito deve responder por ele, independente de quem quer que seja, isso é fato, mas daí a exposição a público de pessoas que são meramente suspeitas e suas famílias vai uma grande diferença, o que me faz refletir acerca do sentido da democracia presente no pensamento de Espinoza.

                Ainda hoje muito se tem falado a respeito da denúncia de improbidade administrativa que envolveu alguns magistrados do Tribunal de Justiça do Estado do Espírito Santo, fato este que realmente merece ser apurado com todos os rigores da Lei e os envolvidos, se comprovado o dolo, punidos exemplarmente, sobretudo em se levando em conta que o Judiciário talvez seja uma das instituições dentre os Três Poderes que ainda goza da confiança por boa parte da população brasileira, pois raramente vemos seus membros envolvidos em episódios tão tristes quanto esses que o envolveram.

                Mas também existe uma outra questão que não foi explorada pela mídia, talvez por não ser “vendável”. Alguém já parou para pensar se o que ocorreu no TJES foi uma retaliação a uma decisão daquele Egrégio Tribunal contrária a interesses outros e que talvez tenha desagradado a outros interesses? É possível.

                Recentemente, vários juízes do Brasil assinaram um manifesto de apoio ao juiz federal Fausto de Sanctis, inclusive do Espírito Santo, por conta dos desdobramentos da Operação Satiaghara da Polícia Federal. Pode até ser uma idéia surreal, mas que ainda assim não pode ser completamente descartada, pelo menos numa perspectiva microfísica de Foucault.

                Por fim, não estou aqui advogando nem favor nem contra nenhum dos envolvidos no caso, mesmo porque não sou técnico da área de Direito, mas não posso aceitar passivamente que parte da população forme sua opinião pautada apenas em juízos de valores criados por meios de comunicações, alguns sem critério ético, daí minha insatisfação. É importante refletir, analisar para não se incorrer no erro de se cometer injustiças. Erros são cometidos, afinal somos humanos e nessa condição muitos ainda haveremos de cometer, porém, é necessário que não permaneçamos no “Pão e Circo” como parecem querer alguns, o que se traduz na omissão na elaboração de um juízo crítico acerca das coisas. Talvez esse seja um dos piores erros humanos.

                É imprenscindível seguir na busca da verdade que está nas entrelinhas dos discursos.

               

                                                                              A luta continua.

                                                                                                                                                                                                                                          

                                                               Marcelo Adriano Nunes de Jesus.

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Lições de Cidadania no Colégio Estadual Marcílio Dias - Carabuçu - RJ.

                              Com esse lema, a direção do Colégio Estadual Marcílio Dias, localizado em Carabuçu, Nororeste do estado do Rio de Janeiro tendo à frente as professoras Maria Estela e Helena, vêm fazendo um belo trabalho junto aos alunos no sentido de fazer com que eles aprendam fazendo, apoiando todos os projetos nesse sentido.

            Desde o ano de 2008, reiteradas campanhas vem sendo feitas naquele espaço com o intuito de levar aqueles que estão numa situação por deveras complicada, um pouco de esperança e mais, alimentos, roupas e brinquedos, como foi a campanha para os desabrigados de Santa Catarina a qual teve a nossa singela participação, além de inúmeras outras no decorrer daquele ano.

            Durante o ano letivo, bimestralmente é feita a “Campanha do Quilo” entre os alunos do Ensino Fundamental e Médio, e que consiste num quilo de alimento por aluno que evidentemente possa contribuir. Muitos trazem bem mais que um quilo, o que confere sucesso total a campanha.

            Certamente que por mais que se faça, críticas existem, mas para aqueles que se ocupam em criticar maldosamente, sugiro aos mesmos que eles deveriam levantar uma bandeira – seja ela qual for - , e fazer a parte que lhe compete, e não perder tempo em apontar os erros, os quais certamente existem, mas que ao invés disso, venham somar, e não diminuir.

            Só quem trabalha com o social sabe dos inumeráveis dramas vividos pelas pessoas nessas condições. Mais importante do que a felicidade e o empenho dos alunos em ajudar, é a grata satisfação em saber que ainda que minimante, conseguimos levar um pouco de felicidade às pessoas através das nossas ações.

            Na verdade, isso não deveria acontecer, mas já que o problema existe, não adianta ficar apontando culpados  - a História está cheia deles - , não podemos deixar  que tudo seja resolvido pelo Estado, pelo menos nós, enquanto professores, temos a OBRIGAÇÃO de ir além dos conteúdos escolares, os quais diga-se de passagem, não contemplam a Ética e Cidadania enquanto disciplinas obrigatórias, o que é lamentável, mas mesmo assim,  somos responsáveis pela reprodução de erros quando nos limitamos ou nos omitimos naquilo que poderíamos e deveríamos fazer melhor.

            Por último, que o mundo saiba que mesmo num local distante da capital, com uma população predominantemente rural e pobre, conseguimos, ainda que paliativamente, resolver os dramas de algumas pessoas, e vamos continuar fazendo.

            Parabéns ilustres diretoras, em acreditar, permitir e tornar possível nosso trabalho. Muito obrigado!

            Parabéns, queridos alunos e alunas em trazer para o concreto, aquilo que nós aprendemos no abstrato. Sem vocês, nada disso seria possível.

 

Outono de 2009.

 

                        A LUTA CONTINUA.

 

         Marcelo Adriano Nunes de Jesus

            







quarta-feira, 1 de abril de 2009





                DIÁLOGOS, MAS NÃO É O DE PLATÃO.

 

 

            Dizem as más línguas que o Brasil é o país campeão em termos de preconceitos e desconhecimento histórico, o que de certa forma se confirma ao verificar as últimas declarações do nosso presidente que colocou a culpa da atual crise mundial nos “homens brancos e de olhos azuis” além de outras opiniões tresloucadas que se entreouvem por aí.

            Guardadas as devidas proporções, dias desses numa dessas intermináveis filas bancárias em que eu estava apenas para buscar uma informação, não pude deixar de ouvir um diálogo entre duas senhoras acerca de um grupo de ciganos que há dias havia chegado à cidade.

            Eis um trecho da conversa.

            - “Maria”, você viu que coisa horrível?! Como se já não bastassem às várias pessoas estranhas que têm aparecido por aqui, agora apareceu um povo meio esquisito, com dentes de ouro e umas roupas meio  estranhas, acho que devem ser ciganos.

            - Ah, sim, eu vi, e você está certa, são ciganos. Inclusive ontem pela manhã a polícia foi chamada para “revistar” um grupo que estava aqui na esquina, ao lado da farmácia lendo as mãos de algumas mulheres. Vê se pode, tanto lugar para essa gente se “achegar” e eles resolveram vir pra cá! A polícia está certa, tem que revistar, prender e de preferência mandá-los baixar noutra freguesia, pois ouvi dizer que são todos ladrões.

            - É verdade, mas eles estavam roubando alguém?! - perguntou a primeira -.

            - Não, mas por via das dúvidas é melhor prevenir do que remediar.

            - Você tem razão, que coisa!.

            Confesso que esse diálogo mexeu um pouco comigo, sobretudo ao notar que as mulheres estavam bem vestidas e demonstravam poucos erros de português em suas falas, o que denota uma certa instrução. Mas, independente do grau de escolarização e de como as pessoas estão vestidas, considero um absurdo em pleno século XXI - com tantas informações disponíveis e acessíveis - as pessoas ainda nutrirem preconceitos ainda mais em relação à cultura de um povo. Será que elas desconheciam o fato do Brasil ter tido dois Presidentes que foram ciganos, Washington Luis e Juscelino Kubitschek? Pensei.

            O fato, é que no dia seguinte a esse diálogo, fui ao meu “laboratório”, reuni as turmas do 8° e 9° anos do ensino fundamental e disse-lhes que naquela semana iríamos fazer um trabalho de campo; um estudo sobre a cultura cigana e que tinha por finalidade melhor esclarecê-los no sentido de se evitarem injustiças com o desconhecido, afinal, não é todo dia que se tem uma oportunidade como essa.

            Ante a empolgação dos adolescentes com o tema e após insistentes pedidos para fazermos logo o trabalho, resolvi atende-los e fazer a visita ao acampamento naquele mesmo dia.

            Dividi os grupos, passei algumas instruções finais e seguimos nossos “destinos” rumo ao desconhecido.

            Dirigi-me ao primeiro cigano que avistei na entrada da Usina Santa Isabel. Era um homem de meia idade, porém muito educado e solícito.

            - Bom dia, senhor, disse-lhe. Estou com um grupo de alunos do Colégio Estadual Alcinda Lopes Pereira Pinto e gostaria de saber com quem devo falar para pedir uma autorização para fazer uma entrevista com os moradores do local.

            - Ah, sim, bom dia! O senhor pode falar com o “seu” Moacir, ele está sentado bem ali, disse-me apontando o local.

             Agradeci, chamei os alunos e fomos juntos ao encontro do “seu” Moacir.

            - Bom dia, senhor, disse-lhe.

            - Bom dia, retrucou. A que devo a honra de tão bela visita – perguntou -?

            Após me apresentar e explicar-lhe a que tínhamos ido, com uma amabilidade e paciência incríveis, o senhor Moacir respondeu a todas as perguntas que lhe foram dirigidas bem como autorizou nossa visita as várias barracas existentes no local, – desde que também fossem autorizadas pelos moradores –, o que foi permitido por todos, além do fato  de poder  fotografar o que considerássemos importante para o nosso trabalho e entrevistar quem quiséssemos.

            Confesso que foi um grande aprendizado, tanto para mim quanto para os alunos, que a partir daquele instante passaram a enxergar os ciganos com outros olhos; com os olhos da verdade, e não mais com os olhos da superstição e do “ouvi dizer”. Descobrimos muitas coisas interessantes, entre elas, a que qualquer um pode se tornar um cigano, assim como qualquer cigano pode deixar de sê-lo, para isso bastando querer. Admito que desconhecia esse e vários outros detalhes que nos foram passados.

            Outra coisa que também chamou muito a nossa atenção foi a limpeza e o cuidado das mulheres no trato com os utensílios de cozinha. Nunca houvera visto panelas tão brilhantes em minha vida, nem quando novas.

            Um outro fato não menos importante e que também é do desconhecimento de muitos, diz respeito a  religião: se denominam católicos, mesmo  mantendo algumas das suas tradições, como a crença na reencarnação, no destino etc. Mas soube também, que eles se tornam adeptos da religião predominante do lugar aonde estão, isso no caso de ciganos que vivem na Europa, Ásia e África, mas são sempre monoteístas Fiquei tentando imaginar vários ciganos dentro de uma Igreja Católica num domingo de missa. taí uma cena que adoraria presenciar, ainda que em Bom Jesus tivéssemos tido um padre que fora cigano, conforme o caso hoje do monsenhor Paulo Pedro, o qual levava muitos ciganos para o interior da Igreja.

            Entretanto, para assistir a uma missa, eles têm que se “disfarçar”. Passando esmaltes brancos nos dentes para esconderem os de ouro e também usando roupas convencionais para não serem notados. Fazem isso provavelmente para evitar constrangimentos e preconceitos. Deve ser horrível ter que se passar por outra pessoa para poder ao menos rezar em paz!

            Entretanto, sabe-se que a Igreja prega a fraternidade entre os povos e é totalmente contra qualquer tipo de discriminação. O fato, é que essa atitude de alguns ciganos se deve a algum caso isolado ocorrido numa dentre milhares de Igrejas.

            Numa das minhas perguntas ao chefe do grupo, fui bem direto ao assunto, perguntei  como eles faziam para sobreviver. Se existiam falcatruas ou golpes contra os incautos dentre outras coisas do gênero.

            Foi quando ele me respondeu:

            - Meu filho, as pessoas têm o livre arbítrio, a gente educa. Eu tenho pouco estudo, mas aprendi na escola da vida, que é a mais completa de todas, - disse o senhor Moacir do que silenciosamente concordei. E continuou -,  que tudo o que aqui se faz, aqui se paga. Deus não dorme, são esses valores que passamos de geração a geração para os mais novos, mas é possível que haja ciganos que pratiquem o mal, assim como existem maus médicos, maus policiais, maus professores, maus pais, etc. e com os ciganos não é diferente, existem grupos rivais sim, mas que raramente se enfrentam, preferem se evitar.

            - Respondendo a sua pergunta de forma mais direta, - continuou - aqui não prejudicamos ninguém, mas vou te falar uma outra coisa, – e apontou para o meu tênis -. Se eu te ofereço trinta reais pelo seu sapato, você me vende, e lá na frente eu vendo por sessenta, prejudiquei alguém? Perguntou.

            - Não, absolutamente, - respondi -.

            - Pois então, sobrevivemos de trocas, compra e venda. O mundo é dos mais sabidos, disse sorrindo, mas sem nenhuma maldade na sua fala ou no seu olhar.

            - E quanto às mulheres - perguntei - o que fazem?

            - As mulheres são responsáveis pelo sustento da família através das adivinhações. Cuidam da casa e dos filhos, mas os homens também contribuem através do comércio.

            - Ah, sim, disse-lhe concordando com a cabeça. Então são as mulheres as grandes responsáveis pelo sustento da família! Interessante, pensei.

            Por fim, ao contrário do que muitos pensam, os ciganos são um povo muito pacífico, nunca se envolveram em polêmicas criadas por eles próprios. As polêmicas são criadas pelos outros que consideram sua cultura superior a deles, como se isso fosse possível. É um dos poucos povos do mundo que nunca se envolveram em nenhum tipo de guerra. Vagam pelo mundo há milhares de anos e não há nenhum registro histórico que faça menção a qualquer tipo de violência que por eles tenham sido praticados. Ao contrário, na história recente da humanidade, foram eles quem sofreram os maiores horrores durante o Holocausto, mas muito pouco é dito sobre esse episódio, mesmo nos livros didáticos de História, o que é lamentável. As razões dessa amnésia da História? Assunto talvez para um próximo texto, mas estejam certos, elas existem.

            É como dizia Saint Exupéry: “só se vê bem com o coração, o essencial é invisível para os olhos”. Noutras palavras, só se respeita àquilo que se conhece, então, que esse texto, mesmo sem o rigor acadêmico, sirva para iluminar a “Carverna de Platão” a qual uma boa parte dos homens vivem..

 

  

                                               A luta continua.

                                                          

 

 

                                   Bom Jesus do Norte, 30 de Março de 2009.

                                          

 

 

                                      Marcelo Adriano Nunes de Jesus.

  

 

 

sexta-feira, 20 de março de 2009

ATENÇÃO PARA O REFRÃO.

 

                Nas últimas semanas assistiu-se a intensos e calorosos debates entre a mídia, a sociedade e a Igreja Católica em torno da polêmica que envolveu o aborto Legal de uma criança de nove anos de idade vítima de estupro cometido pelo padrasto e que repercutiu em vários jornais nacionais e estrangeiros, entre eles um dos mais importantes e respeitáveis jornais da Europa, o espanhol El País.

                Polêmica à parte, é importante destacar que em momento algum dessa dialética falou-se da mãe da criança no sentido de trazer à tona o seu histórico de vida que certamente é muito parecido com o de milhares de crianças brasileiras.

                Mães, que na maioria das vezes foram obrigadas a muito cedo largar suas bonecas e “casinhas” para assumirem funções que são de adultos. Mães que se marginalizaram. Mães que sofreram abusos. Mães que choraram a ausência de um pai ou de uma mãe.

                Mães que gostariam de legar um futuro melhor para seus pupilos, mas por força das circunstâncias são obrigadas a negligenciá-lo em detrimento à própria sobrevivência. Mães, que se vêem obrigadas a deixar seus filhos aos cuidados de verdadeiros monstros, mas coitadas, muitas não sabem que o inimigo mora ao lado. Mães que choram....

                O caso da menina estuprada em Pernambuco vem reforçar essa idéia, e embora muito já se tenha falado sobre o tema, nunca é demais trazer à luz do debate a possível razão desse problema e que certamente está ligado a falta de conhecimento o qual tem como origem uma educação deficitária de nossas crianças, jovens e adultos.

                O Brasil não conhece o Brasil. Existem lugares em que a informação não chega, mesmo com a alta tecnologia disponível há lugares em que ela não chega, e nos lugares que chega, não quer dizer que seja acessível a todos. Não é. A informação chega aos lugares e às pessoas aonde a mesma possa auferir algum lucro, essa é a lógica de mercado.

                Nesse contexto, o Nordeste brasileiro, sobretudo na região do agreste, é um dos que mais sofre com essa carência: desde a água, elemento indispensável à vida, às escolas, elemento indispensável a formação e informação; da comida, a condição de produzi-la. Falta-se de tudo.

                Por outro lado, também existem pessoas que não estão interessadas em se informar, preferem manter-se na “Caverna de Platão” a buscar informações ou mesmo aproveitar-se das que chegam, basta dar uma olhada ao redor e constatar o enorme número de analfabetos funcionais e que estão nessa condição por opção, isso sem mencionar o fato de que muitos não gostam de ler e acham essa prática tediosa e cansativa, o que de certa forma é compreensível em se levando em conta a má qualidade do mercado editorial que publica desde Paulo Coelho a Regininha Poltergeist. Realmente, um primeiro contato com a literatura tendo como parâmetro esses dois autores não é de se estranhar que as pessoas se traumatizem.

                Por fim, tudo o que acontece de negativo tende-se a culpar o Estado, o que em parte tem sim o seu quinhão de responsabilidade nesse quadro, mas creio que uma boa parte desses problemas são criados pelas próprias pessoas, que por uma ação de imprudência, negligência ou omissão, acabam ensejando dramas como esse da menina de Pernambuco e vários outros que estão acontecendo no exato instante em que escrevo e também agora, no exato instante em que você lê essa matéria.

               

                É como dizia Gal Costa na música Divino e Maravilhoso...

 

Atenção, ao dobrar uma esquina

Uma alegria

Atenção menina

Você vem, quantos anos você tem

Atenção, precisa ter olhos firmes

Para esse sol, para essa escuridão

Atenção, tudo é perigoso, tudo é divino e maravilhoso

Atenção para o refrão....

É preciso estar atento e forte

Não temos tempo de temer a morte.

 

                              

                                    Bom Jesus do Norte, 19 de março de 2009.

 

                                              

                                         Marcelo Adriano Nunes de Jesus.

quarta-feira, 11 de março de 2009

                            ACERCA DO AMOR E SUAS IMPLICAÇÕES.

 

 

            Aventurar-se a dissertar sobre o tema “amor”, não é uma tarefa das mais fáceis, ainda que o desenvolvimento da matéria seja feito a duas mãos, - conforme o caso em tela -, isso porque, é um sentimento que reúne várias nuances e também várias leituras.

            Mesmo assim, após uma detida reflexão na direção desse intento bem como uma conversa preliminar com o meu parceiro de escritas que em muito auxiliou-me na elaboração do presente, resolvemos aceitar o desafio de escrever sobre esse sentimento que desestabiliza qualquer mortal; que faz com que desde o mais humilde do ser ao maior dos intelectuais, sinta-se “perdido”, sem saber ao certo o que fazer e como agir ante uma situação inesperada e que coloque em “xeque” toda sua vã “segurança” acerca do tema.

            Mas a vantagem, a grande vantagem, é que não existe nenhuma banca examinadora composta por doutores no assunto que irá avaliar se fizemos ou não a escolha certa, mesmo que o resultado dessa escolha tenha sido a renúncia a um amor que poderia ter dado certo. Será uma avaliação pessoal e solitária. É sobre esse amor que iremos abordar. O amor entre as pessoas.

            Aquém das recentes descobertas científicas que envolvem o tema conforme reportagem no Fantástico de 22 de fevereiro de 2009, é interessante observar o desenvolvimento do “approach” entre as pessoas envolvidas nessa situação. O que se observa, é um verdadeiro jogo de sedução e ao mesmo tempo de defesas de ambas as partes. É como se as pessoas quisessem e ao mesmo tempo negassem o desejo de vivenciar pela primeira vez ou novamente, aquela experiência maravilhosa que é amar e ser amado. Olhares perdidos, calafrios, suores, enrubescimentos, gagueiras, são tantas as sensações que talvez devêssemos dedicar um texto apenas voltado para essa questão.

            Passada essa primeira “barreira”, as coisas vão caminhando para um lugar ainda incerto. Os suores, enrubescimentos, etc. já não são tão frequentes, ainda que esse estado varie de pessoa para pessoa, mas a regra geral é essa, cessam-se algumas sensações e iniciam-se outras não menos incômodas.

            No decorrer desse estado outros “fantasmas” vão surgindo e compondo esse cenário, como por exemplo, o medo, que ao lado dos ciúmes, tornam-se ingredientes fatais em qualquer relação, por mais atraente e sedutora que ela seja.

            Teme-se de tudo: desde conquistar a pessoa amada à possibilidade de perdê-la; a criação de movimentos os mais simples que traduzam, sem a necessidade de palavras, o famoso “eu te amo”, a conjugar o próprio verbo e que devido a sua omissão, tornam-se verdadeiros impedimentos à plenitude do amor. Nesse contexto, nenhuma relação será duradoura. É preciso ousar mais, arriscar-se mesmo!

            Temos tempo suficiente para viver uma eternidade ou uma brevidade, e isso, vai depender e muito dos movimentos por nós produzidos. Pode ser que levemos uma eternidade para dizer àquela pessoa o quanto a amamos e o quanto prezamos a sua companhia, ou talvez nem cheguemos a dizê-la, seja por opção oriunda do medo ou por circunstâncias alheias a nossa vontade, nesse caso, a morte.

            Por outro lado, podemos em breves minutos ser felizes ad infinitum, onde o tempo cronológico ao lado da pessoa amada seja um mero detalhe e as horas passem como milésimos de segundos. É a realidade da física quântica presente no amor.

            É importante que tenhamos a consciência de que não existem culpados ou inocentes em se tratando de amor, e isso é ótimo, pois, assim como a morte, nos coloca em pé de igualdade com todos os mortais. Que maravilha é ter essa consciência!  

            Não precisamos arcar com o ônus da culpa de um “não”, simplesmente porque esse ônus não existe. Não precisamos tencionar controlar o que o outro pensa ou supostamente diz a nosso respeito se nem sobre nós mesmos temos esse controle.

            Que se viva plenamente a vida, aprendendo, errando, tentando, mas, sobretudo fazendo a parte que nos cabe, não perdendo o privilégio de amar e se permitir amar, mesmo que esse amor seja apenas a oportunidade de usufruir por breves momentos mas que se tornam infindáveis na companhia de alguém que se quer bem.

            Não precisamos ser egoístas ao ponto de querer aquela pessoa só para a gente acompanhada de uma dedicação exclusiva, e que em muitos casos, exige a renúncia da própria identidade da pessoa. Isso é um absurdo, e com certeza não é amor, afinal, as pessoas são do mundo, não nos pertencem. É preciso dar-lhes a liberdade necessária para avaliarem a permanência ou não em nossas vidas, mas que essa permanência seja pautada na lógica da felicidade e da leveza, não do peso nem da dor.

 

 

                                   Bom Jesus do Itabapoana, 11 de março de 2009.

 

                                  

                                  

                                               Leila Freitas Nascimento

                                               Escritora e Poetisa.

                                               Livre pensadora.

                                               

 

                                               Marcelo Adriano Nunes de Jesus.

                                               Professor.

                                               Livre pensador.

                                               

           

            

sexta-feira, 6 de março de 2009

 

            CARTA ABERTA ÀS MULHERES...E TAMBÉM AOS HOMENS.

 

           

            Nesse início de século, assistimos a vários pedidos formais de “desculpas” vindos de todos os cantos do mundo dirigidos à humanidade. Desde presidentes de Repúblicas, ao Papa, todos o fizeram em função dos vários equívocos que foram cometidos no passado por suas nações ou instituições contra o ser humano, os quais devemos de muito bom grado aceitá-las.

            Não obstante, apesar do reconhecimento desses erros, – desde a invasão da África pelas potências européias passando pelas atrocidades cometidas pela Santa Inquisição em nome de Deus -, percebi que nenhum desses pedidos se dirigiu especificamente às mulheres. Sim, as mulheres, e olha que não foram poucos os erros e abusos contra elas.

            Tomando como paradigma a sociedade ocidental, a história das mulheres foi marcada por muita dor e discriminação. Imaginem que apenas pelo fato natural delas menstruarem e caso fossem surpreendidas por alguém não tão próximo delas naquelas condições e fossem denunciadas por isso, seus destinos, na maioria das vezes, seriam os Tribunais do Santo Ofício, acusadas de bruxaria e coisas do gênero, e muitas acabavam mortas na fogueira. Uma estupidez, mesmo se encarado sob a conjuntura histórica da época.

            Aqui no Brasil até bem pouco tempo atrás, era o homem quem determinava todas as regras familiares e sociais, impondo, muitas das vezes, sem nenhum critério, a sua vontade à força, o que infelizmente ainda acontece em algumas regiões. Houve um presidente da República em terras tupiniquins que na década de 1960 chegou ao absurdo de proibir o uso de biquínis na praia. Trabalhar fora nem pensar. Estudar, imagina, era impossível para a grande maioria das mulheres, exceto para aquelas de famílias mais abastadas e sendo os estudos ligados à educação, preferencialmente a doméstica, onde as escolas preparavam-nas para as atividades docentes ou do lar, como a Escola Orcina da Fonseca que formava costureiras e o Instituto de Educação, que formava professoras primárias no Estado do Rio de Janeiro.

            O tempo passou, veio à invenção da pílula – a conhecida anticoncepcional -, que em muito facilitou a vida das mulheres, porem, apesar do avanço, é muito criticada ainda hoje por alguns segmentos mais conservadores da sociedade, notadamente a Igreja Católica. Aboliu-se a ditadura do soutien, criaram-se delegacias especializadas no atendimento às mulheres vítimas da violência, promulgou-se a Lei Maria da Penha, um avanço, apesar de tardia.

            Decerto que muito ainda há para se fazer, mas já é possível encontrarmos mulheres desempenhando funções as mais diversas e que antes só eram permitidas aos homens, como por exemplo, Presidentes da República e Ministro do Supremo Tribunal Federal, este último, desempenhado aqui mesmo no Brasil, pela doutora Ellen Gracie, primeira mulher a ocupar o cargo de Ministra da mais alta Corte brasileira. Pode-se afirmar que a mulher hoje em dia ocupa quase todos os cargos e funções que antes  eram “próprios” dos  homens, e com um detalhe a mais: com muito mais charme e elegância.

             Em Bom Jesus do Itabapoana, cidade do interior do Estado do Rio de Janeiro com pouco mais de 30.000 habitantes, é possível encontrar mulheres desempenhando papéis os mais diversos, a começar pela chefe do Executivo, passando por uma juíza de Direito, promotoras de Justiça, oficiais de Justiça, advogadas, professoras, diretoras de colégios – diga-se de passagem, são maioria em Bom Jesus –, bem como gerentes de bancos, administradoras, médicas, etc. e sabemos que essa não é uma prerrogativa apenas dessa cidade, mas sim uma característica mundial, excetuando-se os países muçulmanos e alguns que ainda permanecem com uma mentalidade retrógrada em relação ao tema, como é o caso de Cuba, Venezuela, China, Rússia dentre outros.

             Não poderia deixar de citar as outras funções que são desempenhadas com muita maestria e competência por essas maravilhosas mulheres, tais como as cabeleireiras, manicures, domésticas, pedreiras, serventes, faxineiras, garis, motoristas, garçonetes, seguranças, frentistas, atendentes, recepcionistas, secretárias, auxiliares de escritório, vendedoras e várias outras, e que não perdem nada em relação aos demais cargos que exigem especialização acadêmica, ao contrário, encontram-se em pé de igualdade em relação à importância das outras funções, mas que devido à natureza, necessitam de uma escolarização maior, e que por conseguinte afeta o salário, essa é a única diferença entre elas.

            Nesse dia em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, dedico às mulheres de todo o mundo, em especial às brasileiras, essa singela homenagem acompanhada de um pedido formal de desculpas pelas várias injustiças que por nós, homens, foram cometidos contra vocês, bem como, torço para que cada vez mais, novas e significativas conquistas venham se somar as já existentes

            A todas as Marcellas, Thaíssas, Rosinéias, Leilas, Ângelas, Marias, Nízias, Fernandas, Carlas, Josetes, Juremas, Clotildes, Clarices, Eduardas, Margaretes, Marcias, Sandras, Júcias, Sidelmas, Iaras, Aparecidas, Albas, Grazieles, Edilaines, Isauras, Paulas, Solanges, Fabianas, Alessandras, Mônicas, Kellys, Amandas, Fátimas, Penélopes, Ritas, Mayaras, Robertas, Marilaines, Luizas, Íris, Virgínias, Alines, Letícias, Ludmilas, Marinetes, Cláudias, Cristianes, Renys, Carolinas, Dagmares, Margaridas, Julianas, Elisas, Fabíolas, Brancas, Anas, Palomas,  Cristinas, Cristianes, Paolas, Lucienes, Gabrielas, Nilvas, Silvanas, Alices, Goretes, Patrícias, Laras, Hosanas, Marianas, Nayaras, Sheilas, Iracélias, Marinas, Renatas, Vivianes, Rúbias, Tânias, Hanieres, Isabelas, Isabeles, Naires, Franciscas, Francieles, Mirellas, Jaquelines, Graças, Roses, Anas, Rebecas, Vanessas, Lias, Grishnas, Antonias, Josefas,  Josianes, Rosianes, Roseanes, Geórgias, Betinas, Luanas, Fátimas, Vitórias, Antonias, Olgas, Iracemas, Janes, Lidetes, Elaines, Danilas, Dalilas, Ericas, Leonas, Lourdes, Lucianas, Luzias, Maristelas, Estelas, Carmens, Marlenes, Martas, Michelines, Nancys, Lenas, Selmas, Verônicas, Isauras, Andressas e tantas outras que por mera falta de espaço não foram citadas, o meu muito obrigado e minhas sinceras desculpas pelos vários erros cometidos contra vocês durante a história da humanidade.

 

            A luta continua!

 

 

 

                                   Marcelo Adriano Nunes de Jesus.

 

 

Marcelo Adriano Nunes de Jesus.

Professor da Rede Estadual de Educação do Estado do Rio de Janeiro . C.E. Marcílio Dias.

Mestrando em História (trancado)

Universidade Severino Sombra (Vassouras - RJ ).

Pós-graduado em História do Brasil

Universidade Cândido Mendes. ( Rio de Janeiro)

Graduado em História Licenciatura Plena

Faculdades Integradas Simonsen. (Rio de Janeiro).

Graduando em Direito (trancado)

Universidade de Iguaçu. ( Itaperuna)

E-mail: profmarceloadriano@gmail.com